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Ernst Degner - o maior escândalo de espionagem industrial no motociclismo

July 13, 2019

Ernst Degner, enquanto piloto, e Walter Kaaden, enquanto técnico, são os principais protagonistas de uma rocambolesca história de espionagem industrial que, no ínício da década de '60, permitiu à SUZUKI aceder à tecnologia 2T desenvolvida por Kaaden au serviço da MZ.

 

Este episódio, entre outras particularidades, revelou ser da maior importância para os resultados desportivos que os motores 2T viriam a obter nos 40 anos seguintes.

 

Walter Kaaden

 

Kaaden (01.09.1919 – 03.03.1996) nasceu Pobershau na Saxónia e era filho do motorista do diretor comercial da DKW. Aos 8 anos assistiu a um evento de formação no circuito de Nurburgring e, segundo o próprio, terá sido esse episódio que foi preponderante no seu gosto pela engenharia.

 

Walter Kaaden

 

Aos 15 anos, mercê da idade e da nacionalidade, integrou a Juventude Hitleriana e aos 21 anos, em 1940, depois de concluir a sua formação académica na Academia Técnica de Chemnitz, integrou os quadros da fábrica de aviões HENSCHEL em Berlin-Schonefeld sob a batuta de Herbert A. Wagner, o projetista do míssil HS 293 de propulsão por foguete.

 

Dentro do mesmo projeto, em 1943 foi transferido para o Centro de Pesquisa do Exército de Peenemunde como engenheiro de voo, em Agosto do mesmo ano, devido a um bombardeio das instalações toda a operação passou para a rede de túneis profundos sob as montanhas Harz, na fábrica Mittelwerk no campo de concentração Dora-Mittelbau. No final da guerra foi feito prisioneiro pelas tropas americanas.

 

Dependendo das fontes terá ou não, mais provavelmente não, trabalhado no desenvolvimento das bombas voadoras V1 e V2. De qualquer das formas, posteriormente veio a servir-se de alguns conceitos tecnológicos das mesmas para o desenho dos escapes 2T!

 

Findo o segundo conflito Mundial, Kaaden voltou a Zschopau (no pós-guerra, Alemanha Democrática, Oriental ou de Leste, para lá da cortina de ferro) onde criou um negócio de madeira destinado a produzir treliças para os muitos telhados que tinham ficado destruídos. Para trás deixou o convite de Werner von Braun para o acompanhar para os EUA para trabalhar no programa da NASA.

 

 

Foi durante este período que regressou à sua paixão inicial, construi uma moto de corrida sobre a base de uma DKW RT125 e participou com a mesma em vários eventos desportivos e âmbito regional. A sua capacidade técnica, apesar dos seus dotes como piloto não serem brilhantes, foi rapidamente reconhecida.

 

Em 1953, a IFA (marca que substitui, na mesma empresa, a DKW), devido ao facto de estar a ser batida nas competições pela sua concorrente ZPH, contratou-o como Director do Deptº de Competição da marca.

 

Ambas as marcas recorriam à base do motor DKW RT125. O governo não gostou muito da “guerra” entre as duas marcas e impôs a Daniel Zimmermann (o projetista da ZPH) que colaborasse com Walter. O resultado foi um motor de admissão por válvula rotativa em que Kaaden utilizou um osciloscópio para estudar a ressonância do sistema de escape por forma optimizar a potência. A versão de 1954 deste motor desenvolvia 13cv e no seu estágio final de desenvolvimento 25cv às 10.800rpm. Valores impressionantes para a época.

 

 

A partir de 1956, a marca IFA deixou de ser utilizada e passou a ser designada por MZ (Motorenwerke Zschopau). Posteriormente, entre 1992 e 1999, passou a ser designada por MuZ (Motorrad und Zweiradwerk).

 

 

Ernst Degner

 

Ernst Degner (22.09.1931 – 10.09.1983) nasceu em Gleiwitz na Alemanha, tirou o diploma de engenharia em 1950 e foi aprendiz de mecânico em Potsdam.

 

 

 

Travou conhecimento com Daniel Zimmermann no Moto Clube de Potsdam e em 1952 iniciou-se na competição aos comandos de uma ZPH. Em 1955 ganhou o Campeonato da Alemanha Oriental na classe 125cc.

 

 

Em 1956, impressionado com a sua capacidade, Kaaden contratou-o como piloto/engenheiro para a MZ. Em 1957 venceu 11 das 14 corridas que compunham o campeonato nacional, tendo, naturalmente alcançado título de Campeão. A partir de 1958, a MZ começou a participar no Campeonato do Mundo e em 1959 ganhou, pela primeira vez, um GP, o GP das Nações em Monza, tendo terminado o ano em 5º das 125cc e 4º das 250cc. Em 1960, uma queda nos treinos do primeiro GP, Ilha de Man, condicionou toda a temporada, ainda assim, no fim do ano, terminaria em 3º das 125cc.

 

Degner começou a alimentar o desejo de viver como os seus colegas de outros países que ganhavam mais dinheiro, Ernst era pago como qualquer operário da MZ, e ostentavam riqueza e bons automóveis. Descontente com as limitações que a sua nacionalidade e residência implicavam, o muro de Berlim foi construído em Agosto de 1961, Ernst planeou no sentido de se passar para o Mundo Ocidental.

 

Entretanto, a MZ impunha-se, apesar dos meios materiais reduzidos face à concorrência, como detentora de uma tecnologia vencedora. Na época de 1961, Degner terminou 7 GP nas 125cc, obteve por 3 vezes a vitória, tendo ainda conquistado 3 segundo lugares e 1 quarta posição, no final do ano foi vice-Campeão, apesar de por razões diversas ter faltado nas duas últimas corridas.

 

 No GP da Suécia desse ano, o penúltimo, o seu motor não colaborou e desistiu no inicio da corrida. Como foi nesse fim de semana que Ernst conseguiu que a sua família fugisse para a Alemanha Ocidental, posteriormente a MZ e o estado da Alemanha de Leste acusaram-no de boicote... Foi-lhe caçada a licença desportiva, no entanto, o empenho de Joe Ehrlich (proprietário da EMC) conseguiu-lhe uma licença da Alemanha Ocidental e uma moto da sua marca (EMC) para participar no último GP da temporada na Argentina. Devido ao atraso no transporte para a América do Sul, acabou por não poder participar, entregando assim o título de Campeão do Mundo ao piloto da HONDA, Tom Phillis!

 

Ainda nesse ano, em Novembro, passou-se de armas e bagagens para o Japão, onde durante os meses do defeso colaborou ativamente com os técnicos da SUZUKI por forma a passar-lhes o know-how da MZ de Walter Kaaden.

 

Degner participou no CMV até 1966, a partir da deserção, sempre com SUZUKI e o resultado de maior relevo que obteve foi o título Campeão do Mundo na classe 50cc na época de 1962.

 

Por ter sido o primeiro piloto a sofrer uma queda durante a prova inaugural de Suzuka, a curva 8 (entretanto, 1983, transformada em 2) recebeu a designação de curva Degner.

 

Também em Suzuka, durante o GP de 1963, na classe 250cc, sofreu uma violenta queda da qual resultou um incêndio e explosão do depósito da moto com graves consequências fisicas para Ernst, a gravidade das queimaduras que sofreu implicaram mais de 50 enxertos de pele e um interregno na sua carreira até Setembro de 1964. Após este incidente, ainda viria a vencer mais 4 GP: 1964 (Japão em 125cc), 1965 (EUA e Bélgica em 50cc e Ulster em 125cc).

 

Disputou o seu último GP na Ilha de Man em 1966 na classe 50cc, tendo obtido a 4ª posição.

Em 1983, faleceu em Tenerife, onde geria, na altura, um negócio de rent-a-car, de ataque de coração segundo a certidão de óbito, existindo ainda as teorias de que poderá ter falecido de overdose fruto da medicamentação que utilizava após o seu acidente no Japão ou que terá sido assassinado pela Stasi (a policia secreta da Alemanha de Leste) como vingança pela sua deserção!...

 

Este episódio da Guerra Fria, permitiu à marca nipónica dar um passo de gigante no desenvolvimento dos seus motores 2T de competição que, mais tarde, culminaria no fantástico motor da RG 500cc de 4 cilindros com disposição em quadrado que, na classe rainha, foi Campeão do Mundo de pilotos por 4 vezes: Barry Sheene (1976 e 1977), Marco Lucchinelli (1981) e Franco Uncini (1982) e de construtores por 7 vezes: 1976, 1977, 1978, 1979, 1980, 1981 e 1982.

 

 

 

 

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