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CRÓNICA DOS BONS MALANDROS - A arte do desenrasque na hora H

January 31, 2019

Á esquerda, eu em 1982, se se olhar com atenção pode ver-se os restos do guarda-lamas amarelo, á direita o Felisberto, em 2000, no pit stop do fim do 1º turno (em pé à direita, vê-se o Nuno Oliveira pronto para entrar em acção!   

 

A falta de meios, por vezes básicos, eram uma constante na maioria dos participantes do motociclismo desportivo. Se juntarmos a esta circunstância alguma desorganização, por vezes também consequência da falta de recursos, a consequência era, frequentemente, criar situações caricatas. Hoje, lembro duas, em que estive directamente envolvido, ambas no Autódromo do Estoril, uma em 1982 e a outra em 2000.

 

1982

 

Em 1982 participei, como piloto, no Campeonato Nacional de Velocidade na Classe 50cc Racing Júniores. Os meios eram muito escassos, a moto com que comecei a época, a minha CASAL de 5 velocidades com rotor interior MOTOPLAT, equipada com um carburador DELL'ORTO 30 mm e suspensões e travões ridículos, permitia-me ambicionar, quando tudo corria de feição, uma posição a meio da tabela.

 

Aqui a rolar no Sábado (ainda os restos do guarda-lamas não tinham sido recolocados)

 

Para a primeira prova do ano, no Autódromo do Estoril, socorri-me da logística do Sr. Joaquim Nunes (pai do Fernando Nunes que na altura participava nas 50cc Racing Seniores com uma ZUNDAPP). O meio de transporte era uma FORD Transit de caixa aberta com cobertura de lona, na cabine viajava o Sr. Joaquim e a esposa, na caixa seguiam as duas motos, eu, o Fernando e dois amigos meus (Manuel Braga Lino e o Gautier, colegas de faculdade), ia-mos enrolados em cobertores para não ter frio durante a viagem Santa Marta de Penaguião – Estoril (cerca de 400 km nas estradas da época). Para dormir, utilizávamos as boxes da altura (existia uma casa de banho para serviço de todo o paddock junto à torre de controle) e continuávamos a dormir enrolados nos cobertores da viagem.

 

Considero ainda interessante uma breve descrição do meu equipamento na altura: o meu capacete era um BIEFFE, as botas eram emprestadas pelo Ed Miro (MIREKO) – eram pelo menos dois números acima do meu -, as calças eram de napa (o regulamento especificava a necessidade de fato ou calças/blusão de couro ou material similar) emprestadas pelo saudoso Carlos Salgueiro, as luvas eram emprestadas pelo Paulo Braga e o blusão era de pele emprestado pelo Manuel Braga Lino (na verdade o pai dele emprestou-lho e...).

O programa das festas era o seguinte:

  • Sábado: verificações técnicas e aluguer de pista (rodavam todas as classes juntas: 50cc Racing Júniores, 50cc Racing Séniores, 350cc Racing, Superprodução Classe 1 – até 750cc – e Superprodução Classe 2 - + de 750cc). Como nota de rodapé, lembro-me perfeitamente de ser verdadeiramente assustador partilhar a pista com as TZ 350 e as CB 1100 R!

  • Domingo: treinos livres, treinos cronometrados e 3 corridas:

    - 50cc Racing Júniores

    - 50cc Racing Séniores

    - 350cc Racing, Superprodução Classe 1 e Classe 2

Durante as verificações técnicas surgiu um problema, a minha moto não passava as mesmas porque não tinha guarda-lamas dianteiro (o regulamento especificava que o mesmo era obrigatório sempre que a moto em causa não tivesse carenagem completa, esta era a minha quarta corrida e nunca ninguém tinha feito esse reparo). Depois de todo o esforço para chegar ao Estoril, esta era uma grande contrariedade. Face a este problema, alguém, entre os presentes, encontrou uma solução, foi à parte de trás da bancada e gamou um guarda-lamas a uma motorizada que estava estacionada tendo tido o bom senso de ter deixado um papel a identificar a situação e a dizer a razão. Posteriormente o proprietário da peça apareceu, gostava muito de corridas e foi muito compreensivo (penso que era um dos 10 espetadores de Sábado...). Não me lembro do nome dele, mas lembro-me que no ano seguinte também corria.

 

O garda-lamas era amarelo em fibra de vidro e uma vez colocado ficava horroroso (levantado à frente), prendemo-lo com umas braçadeiras metálicas e a moto passou as verificações!

 

Ultrapassado este problema, fiz-me à pista e o guarda-lamas mostrou, mais uma vez, querer ser o protagonista do dia. Perto do fim da reta da meta, o António (Tógu) Lopes da Silva, aos comandos de uma TZ 350 sempre a falhar, ultrapassou-me e eu retribui na entrada da curva 1 – isto não seria possível se fosse uma TZ a funcionar direito, mas tenho ideia de nunca ter visto a moto do Tógu a carburar como devia – e o guarda-lamas saltou. Eu quase caí e olhei para trás preocupado com o Tógu que entretanto tinha passado por cima. Ninguém caiu, mas o guarda-lamas ficou partido em três. Recolhidos os restos da peça, verificamos que parte central (zona de aperto) tinha ficado em condição de utilização, foi montada outra vez e foi assim que corri, com um bocado de guarda-lamas da frente! Não deu mais problemas porque deixou de oferecer digna resistência aerodinâmica!

 

Na corrida fui 5º classificado, o que não foi mau tendo em consideração todos os constrangimentos. Lamentável foi o facto de na mesma corrida ter falecido o Domingos Monteiro (irmão mais novo do consagrado Tózé Monteiro que curiosamente ganhou a corrida de 50cc Racing Séniores que se desenrolou a seguir à nossa, tendo tido essa trágica noticia na hora em que deveria festejar a vitória) devido a acidente na curva 1 (na altura a curva 1 ou curva CITROEN era bastante mais rápida que hoje e tinha os rails à face do asfalto).

 

 

 

2000

 

Em 2000, eu era sócio-gerente da COSE DA MOTO, desde a génese dessa empresa, em 1991, que a mesma esteve ligada à competição e, nesse ano (2000), organizamos uma estrutura para fazer o CNV na classe Supersport com o Felisberto Teixeira como piloto.

 

O Felisberto era na altura um piloto com muita experiência internacional, entre outras, na Endurance com o Team SUZUKI SHELL. Tendo isto em conta, resolvemos participar na ronda portuguesa do Campeonato do Mundo de Endurance na classe Stocksport (motas muito próximas das suas homólogas de série). Inicialmente, a ideia era fazer uma equipa de 3 pilotos com o Felisberto, o Gilson Scudeler e o Nuno Oliveira, esta formação resultava de um acordo com o Paulo Roberto Araújo (em representação do Gilson) e com a YAMAHA Motor Portugal que nos iria fornecer uma R1 para correr e uma outra para servir peças suplentes caso fossem necessárias. Por uma razão (penso que uma questão de compatibilidade de sponsors) de que já não me recordo, o Paulo resolveu saír e levar o Gilson para outra formação. Assim, á última hora, resolvi participar com, apenas, 2 pilotos: o Felisberto e o Nuno. O compromisso da YAMAHA mantinha-se, mas entretanto, as R1 de 2000 estavam esgotadas e serviram-nos um modelo de 1999 (substancialmente inferior). A moto foi entregue em caixa nas boxes do Autódromo do Estoril e a preparação básica que sofreu foi feita “in loco”. A moto para peças nunca foi entregue, hoje, à distância, acho que enfrentar uma prova de resistência, ainda que curta, com apenas 2 pilotos e sem qualquer peça de reserva, foi de alguma inconsciência. A meu favor, o facto de, apenas, saber da falta da moto para peças quando já estava no Estoril! A acrescer à dificuldade, até o amortecedor OHLINS traseiro que montamos era para o modelo de 2000! Durante os treinos o Felisberto queixou-se sempre da eficácia da moto. Entretanto, devo realçar, a boxe tinha treinado e estava bem orquestrada (Zé Pedro (Sr. Cachorro)) para os reabastecimentos e mudanças de pneus.

 

 

A corrida começou e Felisberto cumpriu o primeiro turno (50 m) na 5ª posição geral e 2ª posição das Stocksport, quando parou para trocar de piloto as nossas expectativas estavam ao rubro, apesar de todos os contratempos vislumbrávamos um resultado histórico.

 

 

O Nuno pegou na moto para o segundo turno e caiu (depois de sair das boxes) na curva 1... Foi uma queda ligeira, mas quando chegou às boxes verificamos com desalento que tinha partido a manete do travão dianteiro...

 

Nesta foto são ainda reconhecíveis o José Pedro Fonseca (junto da moto) e o Paulo Ribeiro (à direita) a testemunhar a ocorrência

 

As opções eram desistir ou...

O cunhado Zé Pedro foi à parte de trás da bancada, subtraiu uma manete de uma R1 de um espectador e deixou o número de telemóvel num papel colado na moto.

 

No meio desta confusão, o Nuno Leitão (para quem o Nuno Oliveira competia no nacional em concorrência com a nossa equipa) veio-nos dizer que não autorizava o Nuno a voltar a correr porque não fazia sentido arriscar a sua integridade fisica nestas condições. O Felisberto queria abandonar e eu numa atitude olímpica que me é habitual mas nem sempre favorável disse: “Nós não desistimos!...”

 

Assim o Felisberto cumpriu galhardamente, como pôde, os restantes turnos, tendo terminado exausto e sem o brilho que de facto merecia.

 

Créditos fotos:

1982, a primeira apresentada é da autoria do Carlos Barreiros, a segunda é do Jorge Morgado. Na altura recebiamos as fotos por correio à cobrança e só as viamos depois de pagar (150$00 cada). O Jorge e o Carlos deveriam estar "cartelizados", praticavam exactamente as mesmas condições comerciais!

2000, fotos gentilmente cedidas pelo meu amigo Manuel Carvalho, meu camarada de tropa e que desde há muito tempo se tem dedicado com paixão à fotografia de desportos motorizados "GSI Global Sports Image - photography & news". Podem consultar a sua página FB em: https://www.facebook.com/GSI-Global-Sports-Image-2143608255653024/?__tn__=%2Cdk%2CP-R&eid=ARAseNr6mexNw5LB8RJvbpmSQreuY7Dx9G8iqNKm3vfB-YKREhlLrz-dExZQsrYjD0FdrDHPTHoKEirQ  

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